domingo, 6 de fevereiro de 2011

Bananas acadêmicas



Especialistas em bananas se servem, em geral, de um dos seguintes métodos para suas pesquisas: alguns preferem estudá-las lançando um olhar amplo e abrangente sobre a bananeira como um todo ⎯ deduzem, através de cálculos e conceitos pré-estabelecidos, o cheiro e o sabor a partir da forma dos cachos, das folhas e da composição do solo; outros colhem uma banana e a experimentam, farejando e comendo, deduzindo a partir desta o sabor de todas as demais bananas da bananeira em questão. Os primeiros discursarão sobre uma banana essencial ou hipotética. Os segundos, de uma banana empírica, a única sobre a qual podem digressar, entre as demais variedades cujo gosto e sabor não serão conhecidos.


Haveria como gerar um conceito de banana ao provar o gosto de apenas uma? É possível descrever suas qualidades sem degustá-la?


Por conta dessa querela já arrastada em anos, muitos macacos esqueceram qual a finalidade de suas pesquisas: estão por demais envolvidos numa discussão que não se decide entre aceitar um resultado ora inalcançável, ora de antemão extinto.


Moral: Apesar de todo o pensamento, a banana existe.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010




Eram dois macacos muito amigos, mas diferentes: enquanto um vivia em torno de bananas, o outro não sossegava, era curioso, sempre experimentando de tudo. Dizia este para o amigo:
— Que mesmice! Tu não fica entediado não, de comer só banana?
—  É uma fruta gostosa.
—  Há outras tão boas e até melhores.
—  Pra mim banana é suficiente. Pra quê mais?
—  Pra vida variar, pra ter outras formas de alegria...
—  Não sinto falta de outra coisa.
—  Prova essa manga.
E insistia, insistia, insistia.
Até que, para agradar o amigo ou por perder a paciência, o macaco provou uma manga. Disse que sim, que era gostosa mesmo. Doce e suculenta. Depois prosseguiu, muito feliz e tranquilo, na sua dieta exclusiva de bananas, da qual jamais saiu.

Desmoral 1 (para Ulisses): certos marujos nem precisam de cera nos ouvidos. São surdos por natureza.
Desmoral  2 (essa é para Ulisses também): obrigar não é a mesma coisa que seduzir. Que o digam as sereias.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O macaco original


Certo dia letivo, um macalescente tirou zero numa produção textual, logo ele, que era tão bom em macaquês. Por que?, perguntou ele, indignado. Responde a Macassora: porque não foi tu que escreveu. E leu um pedaço, bem alto, como quem pede a aprovação da macacada. Era um texto sobre mangas, suas variadas espécies e seus diversos sabores. Esse macalescente, além de preferir a fruta mil vezes às bananas que lhe ensinavam a comer, se divertia pesquisando tudo o que podia sobre elas. Por isso, protestou mais uma vez: fui eu, sim! Mas a Macassora insistiu no zero e só voltou atrás depois de uma conversa com os macapais.

Desmoral 1: É por não acreditar na originalidade que se produzem somente as cópias.
Desmoral 2: Onde só se ensinam bananas, falar em manga é contravenção.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

À chaq'un, sa mer, Rimbaud

Elle est retrouvée!
Quoi? L'éternité
C'est la mer mêlée
Au soleil


O Mar não é eternidade:
evapora e deixa apenas sal que arde.

O Mar não apazigua a alma:
liquidifica pés na areia
enterra cotos à imobilidade.

O Mar arrebenta paixões com seus repuxos
sacode os nervos.
Esbofeteia a boca assada
retrai rangendo espuma
e contra-ataca.

O Mar não é eternidade:
é prostração
é aniquilamento.