domingo, 3 de julho de 2011
HEXAGRAMA I - O CRIATIVO (Vôo de Ícaro)
Compus com fogo, sebo e plumas a minha liberdade.
Sem buscar a razão, encontrei a coragem perdida.
Obedecia a ensinamentos antigos; agora libertei uma verdade minha.
Sou capaz de muito, de tudo, a partir de travesseiros e velas.
Cego pelo sol, eu me vi pelo avesso; cego, o calor foi meu guia.
Uma última questão queimou minhas retinas: poderia ter sido deus?
quarta-feira, 18 de maio de 2011
sexta-feira, 29 de abril de 2011
A fruta proibida
Dizem que aconteceu na selva: um macaquinho, aceitando a sugestão da professora, pegou uma fruta exótica e levou para comer em casa. Chegando lá, não conseguiu descascar a fruta e perguntou para sua mãe como se fazia. A mãe ficou apavorada: aquela fruta era tida como mortalmente indigesta para filhotes de macacos. Indignada, foi até a escola e xingou a professora, que alegou não ter conhecimento algum sobre o perigo da fruta. A briga ficou tão feia, que foram parar na polícia. Autoridades foram chamadas, e alegaram que tudo não passava de superstição, tolice de ignorantes: a fruta era indigesta coisa nenhuma, isso estava cientificamente comprovado. A discussão foi longe e tomou conta do bando: uns eram a favor de eliminar a oferta da fruta, por via das dúvidas e em qualquer circunstância; outros diziam que, ao contrário, a fruta era indigesta aos jovens justamente porque não eram acostumados a comê-la desde cedo. Um terceiro grupo, mais moderado, defendia a idéia de processar a fruta em forma de suco ou papinha, de modo a adequá-la ao delicado corpo símio-infantil.
Faltou mesmo é perguntar ao macaquinho o que ele achava.
Moral: Até tu, frutus?
Foto: Rambutam, fruta rara de origem asiática. Dizem que é muito doce e saborosa.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Bananas adaptadas
O jovem macaco só recebia, desde filhotinho, bananas previamente esmagadas: tinham medo, seus preocupados educadores, que ele comesse a banana com casca e tudo, ou inteira, e se engasgasse. Nunca lhes passou pela cabeça que poderiam tê-lo ensinado a descascá-las e mastigá-las bem, ele mesmo.
O jovem macaco cresceu, e deixou de comer bananas: não que não gostasse delas, mas jamais voltou a encontrá-las na forma que costumava comer, como um creme branquinho.
Um dia, porém, lhe serviram uma banana com bela casca amarela. Curioso, o nosso amigo observou como os outros faziam, abriu-a e, finalmente, a saboreou. À lembrança de sua infância, sentiu-se traído e enganado.
Moral: a banana, uma vez esmagada, dificilmente levará à banana inteira.
sexta-feira, 25 de março de 2011
O que eu diria a Peter Pan se eu fosse Wendy
Morrer seria a mais fantástica aventura
Se não fosse tão solitária
- eu sei: eu já morri três vezes.
Na primeira perdi o sapato da infância
e ousei pisar descalça em Neverland.
Na segunda meu beijo deixou de ser dedal
e eu o escondi na comissura dos lábios.
Na terceira Jane abriu no mundo o seu espaço
e tomou parte do meu.
Em todas as três vezes que eu morri
ninguém morreu comigo, tampouco tu
que foste meu melhor amigo.
Morrer será a mais fantástica aventura, Peter,
mas nela voarei só
sem pó das fadas
sem companhia
e não volto mais.
Se não fosse tão solitária
- eu sei: eu já morri três vezes.
Na primeira perdi o sapato da infância
e ousei pisar descalça em Neverland.
Na segunda meu beijo deixou de ser dedal
e eu o escondi na comissura dos lábios.
Na terceira Jane abriu no mundo o seu espaço
e tomou parte do meu.
Em todas as três vezes que eu morri
ninguém morreu comigo, tampouco tu
que foste meu melhor amigo.
Morrer será a mais fantástica aventura, Peter,
mas nela voarei só
sem pó das fadas
sem companhia
e não volto mais.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Bananas acadêmicas
Especialistas em bananas se servem, em geral, de um dos seguintes métodos para suas pesquisas: alguns preferem estudá-las lançando um olhar amplo e abrangente sobre a bananeira como um todo ⎯ deduzem, através de cálculos e conceitos pré-estabelecidos, o cheiro e o sabor a partir da forma dos cachos, das folhas e da composição do solo; outros colhem uma banana e a experimentam, farejando e comendo, deduzindo a partir desta o sabor de todas as demais bananas da bananeira em questão. Os primeiros discursarão sobre uma banana essencial ou hipotética. Os segundos, de uma banana empírica, a única sobre a qual podem digressar, entre as demais variedades cujo gosto e sabor não serão conhecidos.
Haveria como gerar um conceito de banana ao provar o gosto de apenas uma? É possível descrever suas qualidades sem degustá-la?
Por conta dessa querela já arrastada em anos, muitos macacos esqueceram qual a finalidade de suas pesquisas: estão por demais envolvidos numa discussão que não se decide entre aceitar um resultado ora inalcançável, ora de antemão extinto.
Moral: Apesar de todo o pensamento, a banana existe.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
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