quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Miniaturas VIII - história de camponesa

Na falta de varão, foi defender as terras uma jovem donzela cujo sexo a armadura recobriu. Ela enfrentou o dragão e salvou uma linda princesa, que por sua heroína se apaixonou. Pensou a donzela: "o que mais vale: tornar ao campo ou atender à alteza?" Casou-se, pois, e rei se fez.

Bananarte 2


bananarte de Keisuke Yamada

Um dia, o macaco olhou para um cacho de bananas e ficou com vontade de mexer com elas, tão maravilhosas pareciam. Em uma delas grafou algumas palavras - e compôs um poema. Sobre outra coloriu a casca com pincéis e tintas - e produziu uma pintura. A seguinte, cortou delicadamente e esculpiu-lhe um novo formato.
- De que serve isso? - perguntou a macacada - bananas foram feitas para comer!
- Vocês têm razão - respondeu o macaco criador -, assim elas não servem à nada.
E riu livre, tão livre quanto o novo uso que dera às suas bananas, cujo destino não era o de serem comidas.

Desmoral: a arte pode ser útil, mas não escrava: não deve servir à nada, tampouco à ninguém.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Astro-nome


Suspenso pelos fios das árvores
Espia o astro encabelado
Não sei se sol eclipsado
Não sei se dark side of the moon.

Surpreso grita a agonia
na testa recebe a mira:
o tiro 
no nariz alvo.

Poema sobre foto de Daniel Mastroberti (modelo: Alexandre Rocha).


sábado, 18 de outubro de 2014

LORABUR







Em Lorabur, as mulheres ocupam uma posição de grande relevância.Elas passarelam pelas ruas, sem revelar a idade, iluminadas por holofotes dispostos em recantos estratégicos, exibindo volumosas e hidratadas cabeleiras amarelas, cujas mechas balançam progressivas sobre seus corpos obrigatoriamente modelados em fôrmas de silicone. Por conta da regulamentação derivada de um direito à igualdade estética, a identidade das habitantes, suas atribuições profissionais, graus de maturidade ou de sabedoria, e mesmo suas relações afetivas tornam-se confusas aos estrangeiros desavisados. Dada a incomparabilidade resultante de convenções de beleza há muito instituídas, o feio não passa de um adjetivo exótico.
 Dois ou três dias depois, contudo, o olhar passeante e já habituado será capaz de desvelar, aqui e ali, por entre as falsas estamparias de onça, tigres e outros derivados do imaginário felino, um tecido levemente desbotado de baixo custo ou raizes grisalhas em alguma cabeça resplandecente. Sob a mesa de um bar, encontrará, procurando bem, um aplique perdido. E, no erguer brusco de um abano, correrá o risco de deparar-se com um seio deslocado.
 Mais tarde, ao comparecer a um dos incontáveis eventos festivos que alimentam as colunas sociais e retificam a monotonia estética da cidade, não será incomum o vislumbre de uma pálbebra caída, de uma sobrancelha em desalinho.
Iguais perante à lei que regula sua beleza, as mulheres de Lôrabur involuntariamente confessam o grau de distinção conforme a maior ou menor qualidade de recursos buscados para cumpri-la.
O estrangeiro em Lorabur logo percebe que o acento síbil do seu idioma deve-se aos lábios excessivamente injetados em um rosto maquiado com arte, mas inexpressivo. Ao compreender afinal que o assunto da conversa é a nova dieta em moda, deve inferir uma impossibilidade digestiva devido à frequente aspiração das carnes liposas que envolvem o intestino.
 Resta mencionar os homens de Lorabur, pois eles existem: para reconhecê-los, basta reparar nas sombras que suas mulheres projetam a partir dos ofuscantes fachos de luz.

sábado, 10 de agosto de 2013

O macaco despido

Quando o macaco decidiu evoluir, emprestou-se sapatos e roupas. Achava que assim mais se aproximaria da aparência eterna dos deuses aos quais, conforme o Verbo, apregoavam-lhe assemelhar. Em sua incipiência, não podia saber que a vida é volutiva: um dia, desgasto o corpo e despida as vestes, o macaco torna ao bicho que sempre foi. De nada servem suas ciências, suas virtuais qualidades. É nu e viscerado que abandona todo falso pudor e toda hipocrisia. Retorna à espécie. E, ao retornar, morre.

Desmoral: Só vislumbramos o que realmente somos duas vezes: quando nascemos e quando morremos. Em ambas as oportunidades, não o sabemos.

quarta-feira, 20 de março de 2013

HEXAGRAMA V - A ESPERA




Não antes de a chuva cair, ela dizia.
Sabia da nossa impaciência, mas queria nos ensinar.
A cebola devia ter um tamanho imenso, porque ouvimos o trucidar preciso durante todo o noticiário do meio-dia.
Quando o noticiário acabou, dando a previsão do tempo, gritamos todos: Não vai chover!
E ela respondeu, por trás da nuvem de ervas aromáticas, vai sim.
A meteorologia, no entanto, assinalava o mapa com ícones de tempo bom.

Jamais, é claro, com o tom azul-esbranquiçado do céu devido à umidade diluída.
Um sol brilhante e eletrônico na TV, e ela, lá na cozinha, afirmando seu conhecimento sobre os conluios do tempo.
Dizendo não há nisso nenhuma lógica!
E sem olhar pela janela. Se olhasse, veria os passarinhos agitados imitando folhas caindo.
Na televisão insistimos.
Mas a cebola se intrometeu, chiando para que nos calássemos.

Ela castigou a cebola tapando a panela e avisou vou preparar os tomates, sabendo que sempre pedíamos para ver.
Espetou sem dó a primeira casca frágil.
Tocava-os um a um no fogo redondo e azul, até que enferidassem.
Depois jogava-os numa bacia e prosseguia a tortura, esmagando-os, até que houvesse sangue em suas mãos.
Está escurecendo, viram?
Pela basculante aberta, entrava de fato um ar ventoso e fresco.

Os vapores das panelas adensavam em branco.
Um cheiro insuportável de bom se espalhando, multidões de arroz e feijão cozidas e os bifes encolhendo sob o calor da chapa.
Está quase, disse ela, sorrindo.
Encurralava-os, armada de uma faca, uma escumadeira e uma gangue de colheres.
Sob o estalo luminoso do primeiro relâmpago, nos fez sentar à mesa.
Sob o roncar do trovão, empunhamos nossos talheres.

As travessas sendo trazidas uma a uma e os copos trepidando a cada trombada de nuvens.
Tudo e todos à postos, lembro de sua silhueta à janela, amarrada em um avental, emoldurada pelo vento decorado com pó e folhas.
Seu sorriso de bruxa.
Nosso espanto de joão-e-maria.
Finalmente descarregou-se a chuva.

Pontuávamos com o burilar dos talheres a música minimalista da aguaria. 
E ela tagarelava novidades, entremeando:
Não botei muito sal.
Ficou bem passado?
Só mais um pouquinho...
Ai das sobras no prato.