sexta-feira, 29 de abril de 2011

A fruta proibida




Dizem que aconteceu na selva: um macaquinho, aceitando a sugestão da professora, pegou uma fruta exótica e levou para comer em casa. Chegando lá, não conseguiu descascar a fruta e perguntou para sua mãe como se fazia. A mãe ficou apavorada: aquela fruta era tida como mortalmente indigesta para filhotes de macacos. Indignada, foi até a escola e xingou a professora, que alegou não ter conhecimento algum sobre o perigo da fruta. A briga ficou tão feia, que foram parar na polícia. Autoridades foram chamadas, e alegaram que tudo não passava de superstição, tolice de ignorantes: a fruta era indigesta coisa nenhuma, isso estava cientificamente comprovado. A discussão foi longe e tomou conta do bando: uns eram a favor de eliminar a oferta da fruta, por via das dúvidas e em qualquer circunstância; outros diziam que, ao contrário, a fruta era indigesta aos jovens justamente porque não eram acostumados a comê-la desde cedo. Um terceiro grupo, mais moderado, defendia a idéia de processar a fruta em forma de suco ou papinha, de modo a adequá-la ao delicado corpo símio-infantil.
Faltou mesmo é perguntar ao macaquinho o que ele achava.

Moral: Até tu, frutus?


Foto: Rambutam, fruta rara de origem asiática. Dizem que é muito doce e saborosa.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Bananas adaptadas



O jovem macaco só recebia, desde filhotinho, bananas previamente esmagadas: tinham medo, seus preocupados educadores, que ele comesse a banana com casca e tudo, ou inteira, e se engasgasse. Nunca lhes passou pela cabeça que poderiam tê-lo ensinado a descascá-las e mastigá-las bem, ele mesmo.

O jovem macaco cresceu, e deixou de comer bananas: não que não gostasse delas, mas jamais voltou a encontrá-las na forma que costumava comer, como um creme branquinho.

Um dia, porém, lhe serviram uma banana com bela casca amarela. Curioso, o nosso amigo observou como os outros faziam, abriu-a e, finalmente, a saboreou. À lembrança de sua infância, sentiu-se traído e enganado.

Moral: a banana, uma vez esmagada, dificilmente levará à banana inteira.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O que eu diria a Peter Pan se eu fosse Wendy

Morrer seria a mais fantástica aventura
Se não fosse tão solitária
- eu sei: eu já morri três vezes.

Na primeira perdi o sapato da infância
e ousei pisar descalça em Neverland.
Na segunda meu beijo deixou de ser dedal
e eu o escondi na comissura dos lábios.
Na terceira Jane abriu no mundo o seu espaço
e tomou parte do meu.

Em todas as três vezes que eu morri
ninguém morreu comigo, tampouco tu
que foste meu melhor amigo.

Morrer será a mais fantástica aventura, Peter,
mas nela voarei só
sem pó das fadas
sem companhia
e não volto mais.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Bananas acadêmicas



Especialistas em bananas se servem, em geral, de um dos seguintes métodos para suas pesquisas: alguns preferem estudá-las lançando um olhar amplo e abrangente sobre a bananeira como um todo ⎯ deduzem, através de cálculos e conceitos pré-estabelecidos, o cheiro e o sabor a partir da forma dos cachos, das folhas e da composição do solo; outros colhem uma banana e a experimentam, farejando e comendo, deduzindo a partir desta o sabor de todas as demais bananas da bananeira em questão. Os primeiros discursarão sobre uma banana essencial ou hipotética. Os segundos, de uma banana empírica, a única sobre a qual podem digressar, entre as demais variedades cujo gosto e sabor não serão conhecidos.


Haveria como gerar um conceito de banana ao provar o gosto de apenas uma? É possível descrever suas qualidades sem degustá-la?


Por conta dessa querela já arrastada em anos, muitos macacos esqueceram qual a finalidade de suas pesquisas: estão por demais envolvidos numa discussão que não se decide entre aceitar um resultado ora inalcançável, ora de antemão extinto.


Moral: Apesar de todo o pensamento, a banana existe.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010




Eram dois macacos muito amigos, mas diferentes: enquanto um vivia em torno de bananas, o outro não sossegava, era curioso, sempre experimentando de tudo. Dizia este para o amigo:
— Que mesmice! Tu não fica entediado não, de comer só banana?
—  É uma fruta gostosa.
—  Há outras tão boas e até melhores.
—  Pra mim banana é suficiente. Pra quê mais?
—  Pra vida variar, pra ter outras formas de alegria...
—  Não sinto falta de outra coisa.
—  Prova essa manga.
E insistia, insistia, insistia.
Até que, para agradar o amigo ou por perder a paciência, o macaco provou uma manga. Disse que sim, que era gostosa mesmo. Doce e suculenta. Depois prosseguiu, muito feliz e tranquilo, na sua dieta exclusiva de bananas, da qual jamais saiu.

Desmoral 1 (para Ulisses): certos marujos nem precisam de cera nos ouvidos. São surdos por natureza.
Desmoral  2 (essa é para Ulisses também): obrigar não é a mesma coisa que seduzir. Que o digam as sereias.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O macaco original


Certo dia letivo, um macalescente tirou zero numa produção textual, logo ele, que era tão bom em macaquês. Por que?, perguntou ele, indignado. Responde a Macassora: porque não foi tu que escreveu. E leu um pedaço, bem alto, como quem pede a aprovação da macacada. Era um texto sobre mangas, suas variadas espécies e seus diversos sabores. Esse macalescente, além de preferir a fruta mil vezes às bananas que lhe ensinavam a comer, se divertia pesquisando tudo o que podia sobre elas. Por isso, protestou mais uma vez: fui eu, sim! Mas a Macassora insistiu no zero e só voltou atrás depois de uma conversa com os macapais.

Desmoral 1: É por não acreditar na originalidade que se produzem somente as cópias.
Desmoral 2: Onde só se ensinam bananas, falar em manga é contravenção.