sábado, 23 de julho de 2011
O macaco turista
Era um macaco que vivia pulando de galho em galho. De bananeira em mangueira, de abacateiro em coqueiro. Conhecia todo tipo de fruta, de árvore, de vegetação. Colecionava folhas e cascas, que exibia aos amigos. Estive aqui, estive ali, vi isso e vi aquilo.
Vagava um dia em floresta alheia, quando lhe perguntaram das frutas da árvore onde morava. Mas o macaco não soube descrevê-las, nem seu aspecto, nem seu sabor, ou porque nunca as provara ou porque as esquecera.
Desmoral: folhas e cascas, mas nenhuma polpa.
sábado, 9 de julho de 2011
HEXAGRAMA II - O RECEPTIVO (Queda de Lúcifer)
- Levavas a Luz contigo, mas ousaste refletir luz própria.
Agiste conforme a Razão e serás expulso.
- Serei punido por obedecer aos teus desígnios?
- Serás punido pela tua consciência.
E expulso, por teres te tornado a Outra Face.
Assim caiu o Anjo, repelido às profundezas de si mesmo.
domingo, 3 de julho de 2011
HEXAGRAMA I - O CRIATIVO (Vôo de Ícaro)
Compus com fogo, sebo e plumas a minha liberdade.
Sem buscar a razão, encontrei a coragem perdida.
Obedecia a ensinamentos antigos; agora libertei uma verdade minha.
Sou capaz de muito, de tudo, a partir de travesseiros e velas.
Cego pelo sol, eu me vi pelo avesso; cego, o calor foi meu guia.
Uma última questão queimou minhas retinas: poderia ter sido deus?
quarta-feira, 18 de maio de 2011
sexta-feira, 29 de abril de 2011
A fruta proibida
Dizem que aconteceu na selva: um macaquinho, aceitando a sugestão da professora, pegou uma fruta exótica e levou para comer em casa. Chegando lá, não conseguiu descascar a fruta e perguntou para sua mãe como se fazia. A mãe ficou apavorada: aquela fruta era tida como mortalmente indigesta para filhotes de macacos. Indignada, foi até a escola e xingou a professora, que alegou não ter conhecimento algum sobre o perigo da fruta. A briga ficou tão feia, que foram parar na polícia. Autoridades foram chamadas, e alegaram que tudo não passava de superstição, tolice de ignorantes: a fruta era indigesta coisa nenhuma, isso estava cientificamente comprovado. A discussão foi longe e tomou conta do bando: uns eram a favor de eliminar a oferta da fruta, por via das dúvidas e em qualquer circunstância; outros diziam que, ao contrário, a fruta era indigesta aos jovens justamente porque não eram acostumados a comê-la desde cedo. Um terceiro grupo, mais moderado, defendia a idéia de processar a fruta em forma de suco ou papinha, de modo a adequá-la ao delicado corpo símio-infantil.
Faltou mesmo é perguntar ao macaquinho o que ele achava.
Moral: Até tu, frutus?
Foto: Rambutam, fruta rara de origem asiática. Dizem que é muito doce e saborosa.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Bananas adaptadas
O jovem macaco só recebia, desde filhotinho, bananas previamente esmagadas: tinham medo, seus preocupados educadores, que ele comesse a banana com casca e tudo, ou inteira, e se engasgasse. Nunca lhes passou pela cabeça que poderiam tê-lo ensinado a descascá-las e mastigá-las bem, ele mesmo.
O jovem macaco cresceu, e deixou de comer bananas: não que não gostasse delas, mas jamais voltou a encontrá-las na forma que costumava comer, como um creme branquinho.
Um dia, porém, lhe serviram uma banana com bela casca amarela. Curioso, o nosso amigo observou como os outros faziam, abriu-a e, finalmente, a saboreou. À lembrança de sua infância, sentiu-se traído e enganado.
Moral: a banana, uma vez esmagada, dificilmente levará à banana inteira.
sexta-feira, 25 de março de 2011
O que eu diria a Peter Pan se eu fosse Wendy
Morrer seria a mais fantástica aventura
Se não fosse tão solitária
- eu sei: eu já morri três vezes.
Na primeira perdi o sapato da infância
e ousei pisar descalça em Neverland.
Na segunda meu beijo deixou de ser dedal
e eu o escondi na comissura dos lábios.
Na terceira Jane abriu no mundo o seu espaço
e tomou parte do meu.
Em todas as três vezes que eu morri
ninguém morreu comigo, tampouco tu
que foste meu melhor amigo.
Morrer será a mais fantástica aventura, Peter,
mas nela voarei só
sem pó das fadas
sem companhia
e não volto mais.
Se não fosse tão solitária
- eu sei: eu já morri três vezes.
Na primeira perdi o sapato da infância
e ousei pisar descalça em Neverland.
Na segunda meu beijo deixou de ser dedal
e eu o escondi na comissura dos lábios.
Na terceira Jane abriu no mundo o seu espaço
e tomou parte do meu.
Em todas as três vezes que eu morri
ninguém morreu comigo, tampouco tu
que foste meu melhor amigo.
Morrer será a mais fantástica aventura, Peter,
mas nela voarei só
sem pó das fadas
sem companhia
e não volto mais.
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