quarta-feira, 20 de março de 2013

HEXAGRAMA V - A ESPERA




Não antes de a chuva cair, ela dizia.
Sabia da nossa impaciência, mas queria nos ensinar.
A cebola devia ter um tamanho imenso, porque ouvimos o trucidar preciso durante todo o noticiário do meio-dia.
Quando o noticiário acabou, dando a previsão do tempo, gritamos todos: Não vai chover!
E ela respondeu, por trás da nuvem de ervas aromáticas, vai sim.
A meteorologia, no entanto, assinalava o mapa com ícones de tempo bom.

Jamais, é claro, com o tom azul-esbranquiçado do céu devido à umidade diluída.
Um sol brilhante e eletrônico na TV, e ela, lá na cozinha, afirmando seu conhecimento sobre os conluios do tempo.
Dizendo não há nisso nenhuma lógica!
E sem olhar pela janela. Se olhasse, veria os passarinhos agitados imitando folhas caindo.
Na televisão insistimos.
Mas a cebola se intrometeu, chiando para que nos calássemos.

Ela castigou a cebola tapando a panela e avisou vou preparar os tomates, sabendo que sempre pedíamos para ver.
Espetou sem dó a primeira casca frágil.
Tocava-os um a um no fogo redondo e azul, até que enferidassem.
Depois jogava-os numa bacia e prosseguia a tortura, esmagando-os, até que houvesse sangue em suas mãos.
Está escurecendo, viram?
Pela basculante aberta, entrava de fato um ar ventoso e fresco.

Os vapores das panelas adensavam em branco.
Um cheiro insuportável de bom se espalhando, multidões de arroz e feijão cozidas e os bifes encolhendo sob o calor da chapa.
Está quase, disse ela, sorrindo.
Encurralava-os, armada de uma faca, uma escumadeira e uma gangue de colheres.
Sob o estalo luminoso do primeiro relâmpago, nos fez sentar à mesa.
Sob o roncar do trovão, empunhamos nossos talheres.

As travessas sendo trazidas uma a uma e os copos trepidando a cada trombada de nuvens.
Tudo e todos à postos, lembro de sua silhueta à janela, amarrada em um avental, emoldurada pelo vento decorado com pó e folhas.
Seu sorriso de bruxa.
Nosso espanto de joão-e-maria.
Finalmente descarregou-se a chuva.

Pontuávamos com o burilar dos talheres a música minimalista da aguaria. 
E ela tagarelava novidades, entremeando:
Não botei muito sal.
Ficou bem passado?
Só mais um pouquinho...
Ai das sobras no prato.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A banana comparada


Com a boa intenção de estimular um consumo mais saudável e variado de frutas, alguns macacos especialistas em bananas têm dirigido seus olhos, narizes, bocas e cérebros às laranjas, uvas e maçãs. Partem-nas em mil pedacinhos, observam-nas, cheiram-nas e provam-nas para depois selecionar as que, segundo seus especializados critérios, comporão um novo cânone alimentício.  Há, contudo, um porém: por serem especialistas em bananas, e apenas em bananas, não conseguem deixar de tecer comparações entre o fruto que pouco conhecem e aquele que conhecem perfeitamente. Assim, maçãs, uvas e laranjas só são parcialmente apreciadas - justo em sua ressonância a uma caturra, prata ou catarina. Resultado: os inúmeros relatórios de pesquisa até então divulgados passam a impressão, apesar de seus objetos ricos e variados, de falarem sempre da mesma e única fruta: a banana, a banana e a banana.

Desmoral: Independentemente dos notórios esforços dos renomados estudiosos em qualificar as demais frutas tendo por modelo aquela de sua predileção, todas prosseguem sendo degustadas e saboreadas justamente por suas especificidades e diferenças.

domingo, 29 de abril de 2012

Sobre bananas cor-de-rosa



Preocupados com a queda do consumo de bananas, os produtores resolveram diversificar a aparência da fruta, tornando-a mais atraente aos diversos paladares macacais. Após exaustivas pesquisas, descobriram que um dos grandes motivos pelo qual as bananas deixaram de ser consumidas é que elas visam agradar um público majoritariamente masculino, afastando as macacas do páreo, que estão se voltando para outras frutas mais interessantes, como チェリー [tradução: cereja], por exemplo. Numa reunião de emergência, um macho de grande importância no mercado propôs o que acreditou ser uma brilhante solução: produzir bananas cor-de-rosa, em várias tonalidades, do bebê ao choque (visando as consumidoras mais jovens e ousadas). Estas foram distribuídas nas mais importantes casas do ramo. A maioria acabou estragada.

Desmoral (conforme carta de uma macaca-consumidora indignada): Prezados senhores: uma das maiores vantagens das macacas fêmeas é que, ao contrário dos machos, podemos declarar nossas preferências livremente sem que duvidem da nossa feminilidade. A outra é que o nosso paladar abrange frutas de todas as variedades, cores e formatos, ao contrário do paladar dos machos, que parecem limitados a um tipo, no máximo dois (as energéticas e as afrodisíacas). Ao tentar nos vender bananas cor-de-rosa, o senhores incidiram em pelo menos três crimes graves contra o modo de pensar feminino: a) criaram um produto desatualizado, pois o rosa não está na moda para esta estação; b) trata-se de uma cor muito difícil de combinar com meu café- da manhã e c) nunca lhes ocorreu que usar sempre a mesma cor é extremamente enjoativo? Grata por sua atenção.

terça-feira, 6 de março de 2012

Miniaturas VII - Histórias de Cinderela


Cinderela sofre tanto nas liquidações, quanto nos lançamentos. Enquanto suas meias-irmãs conseguem, facinho, facinho, os mais chiques e modernos pares de sapatos, Sua Alteza tem que se contentar com uma modelagem infantil.

Mesmo o Príncipe teve que defendê-la, certa vez, em uma entrevista: "Não pensem que a Princesa esteja fazendo joguinho publicitário. Toda vez que ela perde um calçado nas escadarias do palácio, não é para chamar a atenção dos paparazzis, mas é porque a produção não conseguiu encontrar o número adequado ao seu pé para a cerimônia de ocasião."

Com base nisso,  Cinderela está iniciando uma campanha oficial em favor da diversidade podológica: "33 de salto alto!" é um dos lemas sugeridos. Entre as ações, a exigência de uma lei que obrigue as casas especializadas a disponibilizar 50% de suas prateleiras e estoques para pares acima e abaixo dos números 35 e 36.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Moscas gêmeas (fevereiro)

Mosca 1

Ângulo temperamental
-45o
no verão do desespero
o concreto retorcido
deseja-se tornado.


Mosca 2

Ângulo temperamental
+45o
Do outro lado
a garra segura a taça
de água fresca da caixa.

Fotos de Daniel Mastroberti